Um vidro reciclado e reaproveitado feito pela EcoBitz
Um vidro reciclado e reaproveitado feito pela EcoBitz

24 de agosto de 2026

EcoBitz: O ambientalismo se une ao Bitcoin no Quênia

Frank Corva

Frank Corva

“A preservação ambiental é uma questão de responsabilidade pessoal. Posso fazer algo produtivo com meu lixo e assumir a responsabilidade por ele, em vez de simplesmente jogá-lo fora. Com o Bitcoin é a mesma coisa. Trata-se de responsabilidade pessoal — se você não cuida das suas chaves, perde suas moedas. Existe mesmo um alinhamento entre o Bitcoin e o ambientalismo.” — Kelvin Makini, fundador da EcoBitz

Em novembro de 2023, Kelvin Makini voltou pra sua cidade natal, Mitaboni, no Quênia, com um diploma em engenharia elétrica, mas poucas perspectivas de emprego, já que o mercado de trabalho na sua área estava parado.

Durante esse período de inatividade, Makini percebeu uma tendência preocupante em Mitaboni: a cidade tinha se acostumado com as garrafas de vidro espalhadas pelas ruas.

Isso não lhe pareceu certo.

Ele decidiu fazer algo a respeito.

“Fiquei motivada a começar a reciclar porque ninguém mais estava fazendo isso”, Makini me disse numa entrevista. “As pessoas estavam simplesmente deixando suas garrafas de vidro nas ruas, e eu pensei comigo mesma: ‘O que posso fazer a respeito?’”

Ele começou a acordar cedo de manhã e a recolher todas as garrafas que conseguia encontrar pela cidade. Acabou juntando mais de 20 sacos de vidro e estava ficando sem espaço pra guardá-los.

Makini com um saco de garrafas de vidro

Makini com um saco de garrafas de vidro | Foto cortesia da EcoBitz

Depois de entrar em contato com algumas empresas de reciclagem, uma delas acabou vindo buscar os sacos e, nesse processo, pagou uma remuneração à Makini.

Depois dessa transação, Makini teve um estalo.

Havia uma oportunidade aí, embora não tivesse sido totalmente desenvolvida.

Depois de um tempinho, a Makini descobriu o segredo — e a resposta incluía um plano mais abrangente e um dinheiro melhor.

Como a EcoBitz surgiu

Pouco tempo depois de Makini ter voltado para Mitaboni, ele participou de outra experiência educacional.

Essa experiência não foi tão formal quanto a da universidade, mas talvez tenha sido mais marcante em alguns aspectos.

Makini tinha começado a pesquisar sobre uma moeda digital nativa da qual já tinha lido algumas vezes quando estava na faculdade — o Bitcoin — e, ao fazer isso, entrou em contato com Felix Mukungu e a equipe da The Core, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação sobre Bitcoin, com sede no Quênia.

“O Felix me ajudou a fazer o curso ‘My First Bitcoin’”, explicou Makini. “Foi por aí que comecei com o Bitcoin.” (Mais tarde, a Makini apareceu no documentário patrocinado pelo ‘My First Bitcoin’ que tá aqui embaixo.)

Logo depois, Makini começou a incluir o bitcoin no programa de reciclagem, pagando aos recicladores de sua equipe, que não parava de crescer, em sats — 21 sats por garrafa que eles coletassem, para ser mais exato.

Nessa altura, a equipe do Makini já tinha começado a recolher vidro não só nas ruas, mas também em aterros sanitários, além de boates, lojas e bares que serviam bebidas em garrafas de vidro. Ele pagava aos donos desses estabelecimentos em bitcoin pelas garrafas.

Mukungu e Makini (o quinto e o sexto da esquerda) e membros das equipes da EcoBitz e da The Core no Salão Social Mitaboni

Mukungu e Makini (o quinto e a sexta da esquerda) e membros das equipes da EcoBitz e da The Core no Salão Social de Mitaboni | Foto cortesia da EcoBitz

“Foi assim que a economia circular em Mitaboni surgiu”, disse Makini.

E, nesse processo, o Makini teve a ideia de um nome para o projeto. Depois de conversar com seus mentores da BitBiashara, uma organização que ensina empreendedores e donos de pequenas empresas sobre o Bitcoin, e da Afribit, um projeto de economia circular baseado no Bitcoin com sede em Kibera, o maior assentamento informal da África Oriental, o nome do projeto surgiu na cabeça do Makini — “EcoBitz”.

“Eu queria um nome que combinasse tanto com o meio ambiente quanto com o Bitcoin”, explicou Makini. “‘Eco’ vem de ecossistema, no sentido ambiental, e ‘Bit’ vem de ‘Bitcoin’.”

E foi assim que surgiu a EcoBitz — uma iniciativa do tipo “de lixo a bitcoin”.

Por que o Bitcoin?

Tem gente que pode dizer que o Bitcoin não é totalmente necessário para as operações da EcoBitz.

Afinal, Makini recebeu inicialmente o pagamento em xelins quenianos (KES), a moeda nacional do Quênia, da empresa que comprou seus primeiros 20 sacos de vidro.

Segundo Makini, porém, o uso do bitcoin tem vários objetivos, sendo o primeiro deles combater a inflação.

“Eu costumava lucrar 2 KES por garrafa, mas a inflação não parava de corroer o pouco dinheiro que eu ganhava”, explicou Makini. “Usando bitcoin, o valor do meu trabalho vai ficar preservado no futuro.”

Makini também observou que as taxas para fazer transações com bitcoin pela Lightning Network costumam ser mais baixas do que as do M-Pesa, um serviço de transferência de dinheiro por celular bem popular no país.

Além disso, o M-Pesa exige que os usuários tenham um documento de identidade nacional, algo que nem todo mundo no Quênia tem e que o uso do Bitcoin não exige.

Por fim, Makini contou que alguns recicladores ainda preferem receber em moeda fiduciária, mas que isso vem mudando aos poucos.

“Quando as empresas de reciclagem percebem que o Bitcoin é diferente das moedas fiduciárias, elas aos poucos começam a preferir os sats”, disse Makini.

Upcycling

Desde que começou, a EcoBitz tem se tornado cada vez mais criativa. Ela não se limita mais a entregar o vidro que coleta para empresas de reciclagem.

A empresa começou a dar uma nova vida às garrafas que não estão quebradas, limpando-as, polindo-as e dando um toque especial a elas para criar produtos acabados que possam ser vendidos.

Artigos de vidro reciclados da comunidade EcoBitz

Artigos de vidro reciclados da comunidade EcoBitz | Foto cortesia da EcoBitz

Para produzir peças de vidro como a da foto acima, além de outros produtos, como copos para uso doméstico, a Makini vai até Nairóbi, a uma loja que faz a reutilização criativa do vidro e coloca a marca nele.

Para fazer esse trabalho, Makini viaja três horas de ônibus de Mitaboni até Nairóbi. O sonho dele é um dia comprar as máquinas necessárias para fazer esse tipo de trabalho sozinho.

“Se tivéssemos a máquina, teríamos um monte de gente vindo até Mitaboni só para mandar cortar os óculos e pagar com Bitcoin”, explicou Makini.

“Não me entenda mal — a gente tem muita sorte de ter acesso a uma máquina que faz isso, porque não fica tão longe assim, mas se tivéssemos a máquina aqui em Mitaboni, poderíamos avançar muito mais. Seríamos capazes de produzir mais produtos”, acrescentou ele.

Um copo EcoBitz “Smart Guy”

Um copo “Smart Guy” da EcoBitz | Foto cortesia da EcoBitz

A EcoBitz apresenta e vende seus produtos na Bitcoin Nairobi

A equipe da EcoBitz apresentou alguns dos seus trabalhos na Conferência Bitcoin Nairobi deste ano, no estande da Fedi.

“Ficamos orgulhosos de expor nossos artigos de vidro na conferência, ao lado das lindas sacolas e bolsas da iniciativa de upcycling da Afribit”, disse Makini.

Fotos do estande da Fedi na Bitcoin Nairobi, onde a equipe da EcoBitz vendeu seus produtos

Fotos do estande da Fedi na Bitcoin Nairobi, onde a equipe da EcoBitz vendeu seus produtos | Imagem cortesia da EcoBitz

“Além disso, quando as pessoas apareciam no estande para ver os lindos produtos expostos e comprar alguns deles, isso nos dava a chance de apresentar a elas o Fedi, que facilita o uso do bitcoin e permite que comunidades, famílias, organizações e pessoas físicas economizem, gerenciem e usem o bitcoin juntas”, acrescentou ele.

“Criamos e testamos as carteiras Fedi deles, e alguns dos participantes incríveis da conferência até compraram artigos de vidro reciclados e pagaram em Bitcoin diretamente na nossa carteira Fedi por meio da federação Afribit Kibera.”

Como a equipe da EcoBitz usa o Fedi

Makini também comentou que ele e a equipe da EcoBitz costumam gastar sats por meio da federação Afribit Kibera na Fedi.

Ele disse que se sente à vontade para usar a Federação porque ele e sua equipe já conhecem bem o Afribit e que “podem entrar em contato facilmente com os Guardiões em caso de problemas técnicos”.

Além disso, Makini contou que a EcoBitz tem um espaço de comunidade bem ativo na Fedi.

“A iniciativa de reciclagem tem usado o espaço para atualizar as mudanças nos preços dos materiais recicláveis e para fazer pagamentos às empresas de reciclagem”, disse Makini. “Uma empresa de reciclagem pode criar uma nota fiscal e compartilhá-la no espaço.”

Makini acredita que cada vez mais empreendedores da sua comunidade vão se interessar pelo Fedi como ferramenta para pagamentos em bitcoin, para manter bitcoins como ativo de tesouraria nos seus negócios e para construir uma comunidade.

Ele também comentou que a equipe da EcoBitz planeja começar a usar o recurso Multispend da Fedi para criar um mecanismo de tesouraria compartilhada.

“Usar o Multispend vai ser um grande passo para garantir transparência e acompanhar o progresso, especialmente na iniciativa de gestão de resíduos para lidar com os sats gerados pela reciclagem e pelas limpezas comunitárias coordenadas, e também para a rede de comerciantes aceitar bitcoin como forma de pagamento e assumir o controle de suas economias por meio da autocustódia”, disse Makini.

O futuro da EcoBitz

O Makini e a equipe dele estão só começando, e ele traçou um plano de ação bem claro para o que vem por aí para a EcoBitz.

Primeiro, ele quer começar a criar recipientes de vidro reciclados que sirvam como embalagens para a pequena apicultura da EcoBitz.

“Isso vai garantir que qualquer pessoa que consumir o mel consiga rastrear todo o processo — desde a colheita do mel até a fabricação da embalagem”, disse Makini.

O objetivo geral da Makini é garantir que nenhum resíduo de vidro vá parar nos aterros sanitários do Quênia, e a equipe da EcoBitz está, no momento, desenvolvendo um programa para que os cacos de vidro triturados (resíduos de vidro) possam ser melhor aproveitados.

“Queremos usar o caco de vidro pra fazer ladrilhos pra casa, bases de mesa e outros tipos de decoração”, disse Makini.

A Makini também espera servir de exemplo de como pode ser uma economia circular de Bitcoin ligada a um programa de reciclagem.

“Eu adoraria ver isso se tornar um exemplo vivo de como pode ser uma economia circular do Bitcoin: recicladores recebendo pagamento em sats, gastando sats para comprar itens de primeira necessidade e economizando sats em um fundo comum por meio do recurso Multispend da Fedi”, explicou Makini. “Gostaria de ver isso se expandir do centro de Bitcoin, onde a comunidade aprende sobre a moeda, para um modelo próspero de ‘resíduos em troca de bitcoins’ que sirva de modelo para outras comunidades seguirem.”

A economia circular do Bitcoin da EcoBitz

A economia circular do Bitcoin da EcoBitz | Imagem cortesia da EcoBitz

De um jeito mais geral, o Makini tá simplesmente feliz por dar um exemplo mais amplo de como o Bitcoin pode ser usado pra resolver problemas do mundo real.

“O mais legal é que a EcoBitz está mostrando que a adoção do Bitcoin não se resume só a ter Bitcoins; trata-se de usá-los para resolver problemas na comunidade, empoderando pessoas que, por sua vez, se tornam embaixadores do dinheiro sólido em suas comunidades e contribuem para o sucesso das economias circulares do Bitcoin”, disse Makini.