3 de junho de 2026
A Vinteum está abrindo espaço para desenvolvedores brasileiros de Bitcoin
Lucas Ferreira trabalha no mundo do Bitcoin desde logo depois de ter descoberto a moeda, no final de 2017.
E, durante grande parte desse tempo, Ferreira, cofundador da Vinteum, uma organização sem fins lucrativos que apoia desenvolvedores de código aberto no Brasil, tem se empenhado ao máximo para atrair mais desenvolvedores brasileiros para o mundo do Bitcoin.
Será que ele tem feito isso porque acha que os desenvolvedores brasileiros são os melhores ou que eles têm algum insight secreto sobre o que o Bitcoin precisa? Não exatamente.
Seus esforços são motivados principalmente pelo fato de que o dinheiro global exige uma rede global de desenvolvedores, e ele gostaria de ver mais brasileiros fazendo parte dessa rede.
“Não estou dizendo que os desenvolvedores brasileiros tenham uma visão especial do que o Bitcoin precisa, mas acho que eles têm uma visão específica do que ele precisa”, disse-me Ferreira numa entrevista.

A foto de perfil do Ferreira no X.
“Os indianos têm uma visão específica sobre o que o Bitcoin precisa. E os nigerianos e quenianos têm outra visão específica sobre o que o Bitcoin precisa e o que funciona no país deles, para o povo deles”, acrescentou ele.
“Ter diversidade, especialmente diversidade geográfica, vai te dar mais perspectivas e você vai ter desenvolvedores prontos para trabalhar em problemas que talvez alguém nos EUA, por exemplo, nem perceba.”
Palavras sábias de um defensor do Bitcoin com formação em ciências sociais, alguém que — para sorte da comunidade Bitcoin — decidiu deixar de lado suas ambições acadêmicas para entrar no mundo do Bitcoin, onde sentiu que poderia causar um impacto maior.
A estrada para Vinteum
Ferreira descobriu o Bitcoin logo depois de se formar em antropologia na universidade.
Ele tinha o desejo de causar um impacto social e, no começo, pensou em fazer doutorado para se tornar professor. No entanto, quando analisou com cuidado como seria esse caminho até o cargo de professor, ele desistiu da ideia.
“Na verdade, era um esquema de pirâmide”, contou Ferreira. “Noventa pessoas entram em um programa de doutorado numa universidade, mas só tem entre quinze e trinta professores, e só surgem novas vagas quando esses professores se aposentam.”
Como não queria fazer parte desse esquema de pirâmide, ele se voltou para o Bitcoin.
Depois de conhecer o XRP por meio de um amigo que era day trader, Ferreira começou a estudar criptomoedas, mas logo percebeu que o Bitcoin era o verdadeiro sinal.
E lá foi ele, direto para o proverbial buraco do coelho do Bitcoin.
Como, segundo o Ferreira, só havia um grande canal de YouTube sobre Bitcoin no Brasil em 2018, ele criou o seu próprio canal, no qual entrevistava outros entusiastas brasileiros do Bitcoin em eventos sobre Bitcoin e criptomoedas que começavam a surgir no seu país.
Uma das pessoas que ele entrevistou foi o gerente nacional da Ripio, uma corretora de criptomoedas argentina, no Brasil. Ferreira conseguiu um emprego na empresa logo depois e acabou indo para São Francisco, na Califórnia, em uma viagem de negócios em junho de 2019.
A viagem coincidiu com a Bitcoin 2019, que prometia ser a maior conferência sobre Bitcoin que o mundo já tinha visto até então. Usando seus próprios recursos, ele prolongou a viagem para poder participar do evento.
A conferência teve um impacto profundo nele, assim como o seminário socrático do San Francisco BitDevs, do qual ele participou em 24 de junho de 2019, na noite anterior ao primeiro dia da conferência.
Foi no evento BitDevs que ele conheceu Alex Leishman, que na época era o anfitrião do BitDevs de São Francisco (e que hoje é CEO e CTO da corretora de Bitcoin River).
Ferreira manteve contato com Leishman, que o apresentou a Elizabeth Stark, CEO e cofundadora da Lightning Labs, em 2021.
Depois de receber os desenvolvedores da Stark e da Lightning Labs em um encontro enquanto eles estavam em São Paulo, no Brasil, para um retiro da equipe, Ferreira passou a fazer parte da equipe da Lightning Labs, onde aprendeu a trabalhar melhor com desenvolvedores.
Até 2022, ele queria se dedicar mais a esse tipo de trabalho por meio de um projeto próprio.
E assim nasceu a Vinteum (“21”, em português).
Fundando a Vinteum
Ferreira fundou a Vinteum junto com André Neves, um desenvolvedor de código aberto nascido no Brasil, com quem Ferreira havia entrado em contato pela primeira vez quando Neves estava em Nova York, logo após sua residência na Lightning Network na Chaincode Labs.
Ferreira encontrou em Neves alguém que compartilhava a mesma paixão por capacitar desenvolvedores.

Da esquerda para a direita: Ferreira; Neves; e Bruno Garcia, membro do conselho da Vinteum e diretor de engenharia | Foto cortesia de Relatório Trienal da Vinteum
O financiamento veio do cofundador da Ripio, Sebastian Serrano, de John Pfeffer, da OKX, da Human Rights Foundation (HRF) e de Wences Casares, um dos primeiros defensores do Bitcoin e empresário do setor de fintech.
Em 2024, a Vinteum estava ganhando força, a ponto de Ferreira ter que se afastar do cargo que ocupava na Lightning Labs. Entre o trabalho na Vinteum e a conferência que ele havia criado três anos antes — a SatsConf —, ele estava bastante ocupado.
“Eu queria trabalhar em tempo integral, queria contratar gente e queria ter mais beneficiários”, disse Ferreira.
A Casares se comprometeu a arcar com os custos operacionais por quatro anos. Esses custos incluíam salários, verbas para programas educacionais e o custo de um espaço físico que o Ferreira e sua equipe inauguraram no início de 2024 — a Casa21, localizada em São Paulo.

Da esquerda para a direita: Ferreira; Renata Rodrigues, diretora de operações de campo da Fedi; Garcia @ Casa21 | Foto cortesia da conta do Ferreira no X
“Sempre achei que encontros presenciais, reuniões e workshops fossem muito mais eficazes para o que eu estava tentando fazer”, explicou Ferreira.
Os eventos presenciais na Casa21 vão desde hackathons até sessões educativas para quem está começando a conhecer o Bitcoin e outras tecnologias de liberdade.
No mês passado, a Fedi patrocinou um evento na Casa21 para apresentar aos participantes o aplicativo da Fedi, o protocolo Fedimint e como funcionam as federações.
A Fedi no Brasil
Segundo Ferreira, metade dos participantes que compareceram à sessão da Fedi na Casa21 no mês passado já conhecia a Fedi, enquanto a outra metade estava conhecendo a organização pela primeira vez.

Sobre a primeira parte, Ferreira disse que vários desenvolvedores com quem ele trabalha têm interesse na Fedi e que um deles chegou a contribuir com o protocolo Fedimint por um tempo.
“Passo boa parte do tempo com desenvolvedores, e eles ficam muito empolgados com o componente de federação do Fedi e com todos os aspectos técnicos da carteira”, disse Ferreira.
Dito isso, não são só os especialistas em tecnologia no Brasil que se interessam pelo Fedi.
“Quando penso de forma mais ampla no que interessa aos brasileiros em relação à Fedi, sinto que o aspecto comunitário da Fedi é muito valorizado”, disse Ferreira.
Ferreira contou sobre um workshop da Fedi na SatsConf, no qual os participantes da conferência conheceram os diversos recursos da Fedi.
O que ele mais se lembrava era do entusiasmo dos novos usuários com a ideia de poderem enviar dinheiro pelo chat do Fedi.
Ferreira também observou que a Fedi poderia ser bastante útil nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, que são menos desenvolvidas e onde as pessoas não têm tanto acesso à infraestrutura financeira.
Continuando na missão
Ferreira comentou com orgulho que “cada vez mais desenvolvedores brasileiros estão aparecendo em diferentes projetos de Bitcoin”.
Ele também ficou feliz em contar que mais de 15 ex-bolsistas da Vinteum estão agora trabalhando em tempo integral no setor de Bitcoin.
Esses desenvolvedores trabalham em empresas como a Blockstream e a localhost, enquanto outros atuam como mantenedores ou líderes de projetos como o Bitcoin Dev Kit e o Stratum V2.
E Bruno Garcia, membro do conselho da Vinteum e diretor de engenharia da organização, também já foi beneficiário de uma bolsa da Vinteum.
Ele também mencionou que a Vinteum lançou recentemente sua segunda plataforma de apoio a desenvolvedores de Bitcoin, está trabalhando para estabelecer uma parceria com a Universidade de São Paulo em uma iniciativa de formação de desenvolvedores de Bitcoin e código aberto, e que planeja continuar promovendo vários encontros na Casa21.
Mesmo com todo o seu sucesso, Ferreira quer continuar abrindo espaço para mais desenvolvedores brasileiros de Bitcoin, pois acredita que isso é essencial para o sucesso do protocolo a longo prazo.
“A diversidade é importante porque não sabemos o que vai acontecer no ano que vem ou daqui a dez anos em termos de regulamentação”, explicou Ferreira. “Vemos desenvolvedores sendo perseguidos nos EUA, e o Bitcoin será menos vulnerável se tivermos desenvolvedores prontos para assumir o comando em qualquer lugar. Se, por algum motivo, os desenvolvedores nos EUA forem impedidos de trabalhar, alguém na Europa, na África ou na América Latina estará lá.”
Além disso, Ferreira simplesmente acredita que, quando os desenvolvedores virem outros desenvolvedores com perfis semelhantes ao deles no mundo do Bitcoin e do código aberto, eles ficarão mais propensos a começar a trabalhar nessa área.
Em suas considerações finais, Ferreira contou uma história em que Garcia, enquanto trabalhava como bolsista da Vinteum, encontrou um pequeno bug em um teste do Taproot (uma atualização do software do Bitcoin lançada em novembro de 2021).
Quando a equipe da Vinteum divulgou a notícia, isso chamou a atenção para o trabalho que os desenvolvedores brasileiros realizam com o Bitcoin.
“Naquele momento, nem era algo tão relevante assim — só um pequeno bug —, mas divulgamos para a mídia local especializada em criptomoedas que o Bruno era um desenvolvedor brasileiro que tinha encontrado o bug, e os brasileiros viram no equivalente local da CoinDesk que um brasileiro estava contribuindo para o Bitcoin Core”, explicou Ferreira. “Isso pode ter dado a eles a oportunidade de pensar: ‘Eu também poderia ser esse brasileiro’.”
