5 de agosto de 2026

Em destaque: O Bitcoin Learning Center em Chiang Mai, Tailândia — Parte III de III

Frank Corva

Frank Corva

Em Parte I desta série sobre o Bitcoin Learning Center, a gente contou como os cofundadores do centro, Fai e Jimmy Kostro, se conheceram e decidiram abrir o centro.

Em Parte II, a gente viu como o centro foi construído, o que ele oferece e as parcerias que a equipe do centro fez com as universidades locais.

Nesta parte, vamos ver como a equipe do centro organiza eventos fora do local e como eles interagem com políticos e formuladores de políticas locais.

Além de estabelecer parcerias com universidades locais, Fai, Kostro e a equipe do Bitcoin Learning Center também se comprometeram a esclarecer os políticos e formuladores de políticas locais sobre o Bitcoin.

Fai vê isso como um elemento essencial para a construção de uma educação mais ampla e em todo o país sobre o Bitcoin na Tailândia.

“Precisamos trabalhar junto com o governo local para educar quem está no topo da pirâmide”, explicou Fai.

“Quando quem tá no topo da pirâmide entende isso, pode aprovar leis e influenciar o currículo que educa um país inteiro”, ela acrescentou.

“É por isso que a gente trabalha com o governo.”

Um dos órgãos governamentais com os quais o Fai e o Kostro mais interagem é a Organização Administrativa Provincial de Chiang Mai, que atua no âmbito provincial e elabora políticas que afetam a educação, a infraestrutura, o turismo e os serviços públicos.

Fai se reuniu com funcionários da Organização Administrativa Provincial de Chiang Mai para discutir o planejamento de eventos | Foto cortesia do Bitcoin Chiang Mai

Fai continuou dizendo que muitas pessoas ricas e até mesmo alguns políticos do país já entendem o que é bitcoin e até têm um pouco.

Ela e o Kostro estão trabalhando agora para ajudar a criar um ambiente em que as pessoas de menor nível socioeconômico no país possam começar a entender melhor e, quem sabe, também economizar em bitcoin.

A legalidade do uso do Bitcoin na Tailândia

A poupança é o principal uso do bitcoin na Tailândia, e o governo tailandês nunca teve nenhum problema com as pessoas usando o bitcoin dessa forma.

É o que diz Piriya Sambandaraksa, a educadora mais experiente e conhecida da Tailândia na área de Bitcoin, além de fundadora e CEO da Right Shift (mencionada na Parte II).

Numa entrevista recente que o Fedi fez com o Sambandaraksa, ele contou que o governo tailandês não só nunca impediu as pessoas de pouparem em bitcoin, como tem sido até relativamente tolerante com quem usa essa moeda.

“Não acho que o Bitcoin já tenha sido visto como um tabu na Tailândia”, disse Sambandaraksa.

“Não sei se isso tem alguma coisa a ver com toda a divulgação sobre o Bitcoin [que fizemos], porque começamos bem cedo. Em geral, quando o governo lançou regulamentações para o Bitcoin e as criptomoedas, elas foram o mais flexíveis possível [...] para deixar as pessoas usarem o Bitcoin ou o que quiserem”, acrescentou ele.

Segundo Kostro, o uso do bitcoin na Tailândia está numa “área cinzenta”.

“Se alguém quiser fazer transações com bitcoin entre particulares, tudo bem”, disse Kostro. “A lei permite isso, mas você não pode colar adesivos do tipo ‘Aceitamos Bitcoin’ na parede de um restaurante, porque isso acaba incentivando as pessoas a usarem bitcoin em vez do baht tailandês.”

Kostro também destacou que existe um meio-termo com aplicativos como o PlebQR (que pode ser usado como um Fedi Mini App).

O PlebQR permite que você faça um pagamento a partir da sua carteira Lightning, que é liquidado em baht tailandês por meio de canais tradicionais de pagamento digital (por exemplo, o PromptPay) na Tailândia. É tipo a versão tailandesa do Tando, do Quênia, que também está disponível como um mini-app do Fedi (só pra constar!).

“Você pode vir para a Tailândia sem dinheiro fiduciário e pagar tudo o que precisar com o PlebQR”, disse Kostro.

Fai acrescentou que, na Tailândia, você pode aceitar Bitcoin como comerciante, desde que continue aceitando o baht tailandês.

Sobre a conversa com o governo local sobre o uso do Bitcoin, o Fai só tinha coisas boas a dizer.

“Na verdade, tem sido muito animador trabalhar com o governo”, contou Fai. “Descobrimos que muitos líderes do governo estão genuinamente interessados em tecnologia e inovação.”

Fai fazendo uma apresentação sobre a história do dinheiro na Organização Administrativa Provincial de Chiang Mai | Foto cortesia do Bitcoin Chiang Mai

Quando ela e Kostro foram apresentados ao prefeito de Chiang Mai, ficaram agradavelmente surpresos ao descobrir que ele já conhecia a tecnologia e é um defensor dela.

“O governo tailandês vê o Bitcoin Learning Center como um centro de estudos, e eles estão felizes por a gente trabalhar com eles e também por capacitar os funcionários públicos.”

Mon Chartrawee, colaborador da Bitcoin Chiang Mai, fazendo uma apresentação intitulada “Como o Bitcoin pode ajudar a cidade” em uma reunião com a Organização Administrativa Provincial de Chiang Mai | Foto cortesia da Bitcoin Chiang Mai

Agora, você deve estar se perguntando: como foi que Fai e Kostro começaram a fazer contatos com autoridades do governo?

É uma boa pergunta, e a resposta é bem simples: organizando provas de corrida de longa distância, é claro.

A organização de corridas com o tema Bitcoin abre espaço para conversas com políticos

Uma das outras grandes iniciativas do Bitcoin Learning Center é o Run For Freedom.

Kostro, que também é corredor de resistência, percebeu um paralelo entre a corrida de longa distância e o Bitcoin, conforme mostrado na captura de tela do site da Run for Freedom (abaixo).

A filosofia sobre como a corrida e o Bitcoin têm pontos em comum, retirada da seção “Por que o Bitcoin?” do site Run for Freedom

E foi assim que, há dois anos, ele começou a organizar corridas em Chiang Mai e nos arredores da cidade.

Essas corridas incluem provas de trilha de até 50 km, além de meias-maratonas e maratonas em que os corredores percorrem as ruas de Chiang Mai.


Uma foto da Meia Maratona do Bitcoin de 2025, organizada pela Bitcoin Chiang Mai | Foto cortesia da Bitcoin Chiang Mai

Para que os corredores pudessem fazer isso, Kostro e a equipe organizadora da corrida precisavam de autorizações.

“Enquanto a gente passava pelo processo de planejamento com os administradores locais, a gente apresentava a documentação que cumpria as normas de zoneamento e solicitava o fechamento de ruas, e no final das reuniões os administradores sempre perguntavam: ‘Então, o que é Bitcoin?’, explicou Kostro. “Era aí que a gente dizia: ‘Bem, senta aí…’”

Uma foto da Bitcoin Trail Run de 2025, um dos muitos tipos de eventos de corrida que a Bitcoin Chiang Mai organiza | Foto cortesia da Bitcoin Chiang Mai

Isso dava início a uma conversa sobre Bitcoin, o que levava a cada vez mais conversas com autoridades públicas de cargos cada vez mais altos.

O que ajudou Fai e Kostro a conquistarem a confiança das pessoas com quem conversaram no governo foi a própria existência do centro físico.

“Quando você tem um prédio reformado e bem cuidado, como o centro de aprendizagem, os funcionários do governo sabem que têm um lugar onde podem ir para cobrar responsabilidade das pessoas”, explicou Kostro. “Isso nos dá credibilidade. Além disso, todo mundo agora sabe que somos generosos com nosso tempo. Isso nos ajudou a construir um bom relacionamento com esses funcionários.”

Fai acrescentou que o fato de ser professora universitária também ajuda bastante.

“A sociedade tailandesa respeita os professores universitários”, disse ela.

“Eles acham que a gente se dedica bastante a nós mesmos, e quando alguém do governo descobre que sou professora há sete anos, me recebem de braços abertos”, acrescentou ela.

“Eles sabem o quanto eu me esforço, tanto na sala de aula quanto na comunidade, e é por isso que estão dispostos a trabalhar com a gente.”

Passando para o próximo nível

Embora Fai, Kostro e a equipe do Bitcoin Learning Center tenham conquistado muito em apenas quatro anos, não parece que eles vão desacelerar tão cedo.

A Fai tá super animada pra aprimorar suas habilidades como alguém que influencia políticas. Ela tá trabalhando agora com dois doutorandos que mostraram interesse em criar um centro oficial de políticas de Bitcoin como uma divisão do Bitcoin Learning Center e vem se preparando pra entrar em contato com o Bitcoin Policy Institute, nos EUA, pra pedir orientação.

Ao mesmo tempo, ela e o Jimmy continuam aprimorando o currículo deles para se adaptar às necessidades de um ecossistema do Bitcoin em constante mudança.

No dia 1º de agosto, a Bitcoin Chiang Mai divulgou um comunicado dizendo que o currículo deles vai se concentrar na autocustódia com assinaturas múltiplas, em resposta ao ataque à carteira Coldcard.

Essa carta foi compartilhada por meio de uma post do Kostro no X

E só duas semanas antes, o Kostro me contou que o centro tinha fechado contrato com seu primeiro cliente da área de mídia, o que rolou bem na época em que o canal do YouTube “Bitcoin Chiang Mai” atingiu um milhão de visualizações.

Fonte

Eles vão ajudar uma empresa na produção, edição, publicação e estratégia de conteúdo, por meio de uma nova divisão oficial do centro chamada BLC Media.

“Com as instalações, o equipamento, a experiência, o histórico de trabalho e uma equipe de mídia já formada por três pessoas, podemos expandir isso de forma eficiente”, me disse Kostro por mensagem. “Para dar conta da carga de trabalho extra e manter a qualidade, estamos adicionando agora um quarto membro à equipe de mídia.”

Esse último acontecimento, em que o centro conseguiu um cliente que paga pelos seus serviços de mídia, parece particularmente merecido, principalmente para uma instituição que acredita que seu verdadeiro retorno sobre o investimento (ROI) deve ser medido pelo número de pessoas que alcança.

Segundo o Kostro, porém, ter clientes que pagam não muda nem um pouco a estratégia nem a missão do Bitcoin Learning Center. É só um sinal de que o centro está passando para o próximo nível.

“O que mais mudou é que nossa equipe agora consegue ver que o valor do trabalho deles vai muito além das nossas próprias paredes e chega à comunidade em geral, e vocês devem se sentir superorgulhosos disso”, disse Kostro.

“Alcançar mais de um milhão de pessoas mostrou que, quando você passa anos construindo algo com tudo o que tem, acaba desenvolvendo pontos fortes de verdade ao longo do caminho”, acrescentou ele.

“Criar uma empresa de mídia local lucrativa com tudo o que aprendemos não parece que a gente tá começando algo novo — parece mais o próximo capítulo natural de tudo o que a gente trabalhou tanto pra construir até agora.”